a haste jogada no chão não é mais indecisa. eis céu e inferno de todo oráculo. é possível que a pétala seguinte fosse mal-me-quer. não sabemos. é daí que nasce a urgência. isso é o que se confunde com alegria. é um minuto luminoso. é o sorriso que vem, por azar.
o djinn quer que escreva
19.6.11
insuficiente (2)
Que você beije minha boca que eu pressione seu corpo que você sopre minha impaciência que eu esqueça sua imprecisão que você queira os pelos roçando minhas pernas cheias de vapor que eu perceba suas mãos descendo lentamente, não é suficiente. A madrugada pode ter asas nos pés, mas é uma hora inútil para o desassossego.
20.1.11
* * *
perdoa, sou cego
deixa
que eu multiplique
versos na sua boca
e beijos também
na sua boca
na sua boca
nada tem a gravidade
da gravidade
11.1.11
hermes resolveu morrer
seus pés têm asas
afinal
graciosas e masculinas
no céu no céu
é você o azul diamantino
no pequeno da estrela.
afinal
graciosas e masculinas
no céu no céu
é você o azul diamantino
no pequeno da estrela.
29.12.10
tanto faz
se, por acaso, gritar seu nome, saiba que não
eu não grito
se examinar seu rosto com cuidado, também não
não serão os meus olhos
mas, se a boca os dentes
a sua, os seus
coincidirem
como viver e morrer no mesmo dia
então o momento é ideal
tanto faz se é a catástrofe, se é a distração
eu não grito
se examinar seu rosto com cuidado, também não
não serão os meus olhos
mas, se a boca os dentes
a sua, os seus
coincidirem
como viver e morrer no mesmo dia
então o momento é ideal
tanto faz se é a catástrofe, se é a distração
25.12.10
a palavra maligno
algo subtraiu
e não estava combinado
mas são assim as dissidências
não se ouve mais música
a persiana está a meia altura
a poeira faz a tarde sólida
o melhor dia para o vencimento
é cinco, dez, quinze
ah, bota aí – amanhã
vou cavar túneis de areia perto da água
amanhã
toda a palavra é tesoura
deixe rever
um enxame de abelhas a buzina e o aceno um beijo o laudo médico e a passagem de avião a palavra maligno e até você, meu amor uma coisa de porcelana uma coisa de cristal uma coisa que incendiou
nada de especial, é apenas uma lista
39 palavras, 154 caracteres sem espaços, 21 bytes arremetendo
que aflição
em intervalos exatos.
8.9.10
24.8.10
***
respiro com parcimônia
enquanto os exaustores esbanjam
seu fôlego de metal e fibra de vidro
seu fôlego de metal e fibra de vidro
até o céu tem dúvida
diante dos seguintes avisos
pause, off, stand by
na minha opinião, qualquer mortal
dorme o sono dos anjos
enquanto eu
essa é a minha opinião
não posso morder a madrugada
como uma pêra nem nada
se não te beijo faz um ano
se faz um ano que não te beijo
é a noite que me tem entre os dentes
é isso que volta até quase os lábios
contando
trezentos e sessenta e cinco.
18.6.10
música de tigre
tudo é ninho vertigem audição
tudo o que penetra e beija é veludo
na caçada cuidadosa
os músculos esticados
fazem e desfazem
uma ponte de cordas sobre o abismo
24.04.09
alba
ela não abre a porta
ela não lê jornal
Alba: as plantas estão secas
ai, esta casa
e os gatos magrinhos que só voltam à noite
são como um punhado de sal no coração aberto
olga
queria ter nascido áurea
mas chamava-se pedra fria
olga é toda material
sob seus olhos
essa espécie de resina
que engraçado
é uma lágrima
O que querem os djinns?
Ela queria saber quem era o franco que avançava sobre Saraqusta Al-Bayda. Mas não houve tempo. O general já ordenara: faz o sinal-da-cruz, sarraceno. Então os moradores da cidade sangraram e a tropa que subiu a colina para salvar seu herói também sangrou. Ela chorou baixo, de modo que derramou lágrimas para sempre. Todos sabem, não se dá leite a quem foi acalentado num elmo.
réstia
trinta graus de luz sob a porta
eis uma nova galáxia de poeira
- mas por que não bateu com força essa porta?
é que as asas de pássaro não são
senão as coisas que elas entreabrem
o salto
Suspeito que, um minuto antes de saltar, ela tenha chegado ao máximo da sua própria transparência: o perfume. Suspeito que seu coração flutuasse no corpo oco e carregasse pequenas encomendas que não seriam entregues. Enquanto seus braços ainda agarravam a amurada da ponte, ela foi um super-herói. Quando as mãos se soltaram, ela esteve em sua pele trêmula pelos últimos vinte segundos. A partir daí, tornou-se constantemente o salto e eu, seu vigia.
burocracia
na fronteira
com os bolsos ingenuamente cheios
sob a luz azul de preencher formulários
eles marcam as seguintes opções
poetas
sim, em trânsito
sim, apenas substâncias controladas
Poema Para Pessoas Que São Compreensivelmente Atarefadas Demais Para Lerem Poesia (Stephen Dunn)*
*Poem For People That Are Understandably Too Busy To Read Poetry
Stephen Dunn
Relax. This won't last long. Or if it does, or if the lines
make you sleepy or bored,
give in to sleep, turn on
the T.V., deal the cards.
This poem is built to withstand
such things. Its feelings
cannot be hurt. They exist somewhere in the poet,
and I am far away.
Pick it up anytime. Start itin the middle if you wish.
It is as approachable as melodrama,
and can offer you violence
if it is violence you like. Look,
there's a man on a sidewalk;
the way his leg is quivering
he'll never be the same again.This is your poem
and I know you're busy at the office
or the kids are into your last nerve.
Maybe it's sex you've always wanted.
Well, they lie together
like the party's unbuttoned coats,
slumped on the bed
waiting for drunken arms to move them.
I don't think you want me to go on;
everyone has his expectations, but this
is a poem for the entire family.
Right now, Budweiser
is dripping from a waterfall,
deodorants are hissing into armpits
of people you resemble,
and the two lovers are dressing now,
saying farewell.
I don't know what music this poem
can come up with, but clearly
it's needed. For it's apparent they will never see each other again
and we need music for this
because there was never music when he or she
left you standing on the corner.
You see, I want this poem to be nicer
than life. I want you to look at it
when anxiety zigzags your stomach
and the last tranquilizer is gone
and you need someone to tell you
I'll be here when you want me
like the sound inside a shell.
The poem is saying that to you now.
But don't give anything for this poem.
It doesn't expect much. It will never say more
than listening can explain.
Just keep it in your attache case
or in your house. And if you're not asleepby
now, or bored beyond sense,
the poem wants you to laugh. Laugh at
yourself, laugh at this poem, at all poetry.
Come on:
Good. Now here's what poetry can do.
Imagine yourself a caterpillar.
There's an awful shrug and, suddenly,
You're beautiful for as long as you live.
(Tem uma tradução bacana feita por Renato Mazzini em http://poesiacomchopsticks.blogspot.com)
Stephen Dunn
Relax. This won't last long. Or if it does, or if the lines
make you sleepy or bored,
give in to sleep, turn on
the T.V., deal the cards.
This poem is built to withstand
such things. Its feelings
cannot be hurt. They exist somewhere in the poet,
and I am far away.
Pick it up anytime. Start itin the middle if you wish.
It is as approachable as melodrama,
and can offer you violence
if it is violence you like. Look,
there's a man on a sidewalk;
the way his leg is quivering
he'll never be the same again.This is your poem
and I know you're busy at the office
or the kids are into your last nerve.
Maybe it's sex you've always wanted.
Well, they lie together
like the party's unbuttoned coats,
slumped on the bed
waiting for drunken arms to move them.
I don't think you want me to go on;
everyone has his expectations, but this
is a poem for the entire family.
Right now, Budweiser
is dripping from a waterfall,
deodorants are hissing into armpits
of people you resemble,
and the two lovers are dressing now,
saying farewell.
I don't know what music this poem
can come up with, but clearly
it's needed. For it's apparent they will never see each other again
and we need music for this
because there was never music when he or she
left you standing on the corner.
You see, I want this poem to be nicer
than life. I want you to look at it
when anxiety zigzags your stomach
and the last tranquilizer is gone
and you need someone to tell you
I'll be here when you want me
like the sound inside a shell.
The poem is saying that to you now.
But don't give anything for this poem.
It doesn't expect much. It will never say more
than listening can explain.
Just keep it in your attache case
or in your house. And if you're not asleepby
now, or bored beyond sense,
the poem wants you to laugh. Laugh at
yourself, laugh at this poem, at all poetry.
Come on:
Good. Now here's what poetry can do.
Imagine yourself a caterpillar.
There's an awful shrug and, suddenly,
You're beautiful for as long as you live.
(Tem uma tradução bacana feita por Renato Mazzini em http://poesiacomchopsticks.blogspot.com)
17.6.10
To Miss Anne Elliot, from Captain Frederick Wentworth (Persuasion, Jane austen)
I can listen no longer in silence. I must speak to you by such means as are within my reach. You pierce my soul. I am half agony, half hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are gone for ever. I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it, eight years and a half ago. Dare not say that man forgets sooner than woman, that his love has an earlier death. I have loved none but you. Unjust I may have been, weak and resentful I have been, but never inconstant. You alone have brought me to Bath. For you alone, I think and plan. Have you not seen this? Can you fail to have understood my wishes? I had not waited even these ten days, could I have read your feelings, as I think you must have penetrated mine. I can hardly write. I am every instant hearing something which overpowers me. You sink your voice, but I can distinguish the tones of that voice when they would be lost on others. Too good, too excellent creature! You do us justice, indeed. You do believe that there is true attachment and constancy among men. Believe it to be most fervent, most undeviating, in F. W.
I must go, uncertain of my fate; but I shall return hither, or follow your party, as soon as possible. A word, a look, will be enough to decide whether I enter your father's house this evening or never.
25.5.10
longe do litoral II
os olhos despovoados
acostumam-se
a saudade passa, baixa
como uma serpente de água salgada
toda lágrima é exílio
todo exílio é inútil
porque não se chora na água
no leito do mar nada mais derrama
21.5.10
a exibição dos aviões
as mãos do mágico
na sala escura
o submarino
no mar de metal
as coisas lindas
são rápidas
como olhos de menino
seguindo caças
num céu de feriado
9.5.10
whuthering heights
May she wake in torment!' he cried, with frightful vehemence, stamping his foot, and groaning in a sudden paroxysm of ungovernable passion. 'Why, she's a liar to the end! Where is she? Not there — not in heaven — not perished — where? Oh! you said you cared nothing for my sufferings! And I pray one prayer — I repeat it till my tongue stiffens — Catherine Earnshaw, may you not rest as long as I am living; you said I killed you — haunt me, then! The murdered do haunt their murderers, I believe. I know that ghosts have wandered on earth. Be with me always — take any form — drive me mad! only do not leave me in this abyss, where I cannot find you! Oh, God! it is unutterable! I cannot live without my life! I cannot live without my soul!
1.5.10
essa pesquisa (nota nº 9)
um escorpião se esconde na areia
o mundo inteiro se retrai
promessas, por exemplo
se ocultam prontamente
afagos, por exemplo
desabituam-se de imediato
tudo se esquiva
tudo se engana
por exemplo:
um tipo de lago comum
azul
é o que se vê em todo o deserto.
30.4.10
ligeira irritação
é que suas asas de pássaro
são
nas coisas que elas entreabrem
nos trinta graus de luz sob a porta
na pequena galáxia de poeira
nos meus olhos que agora ardem
25.4.10
board
atrasados, querido: constatação
a pressa entardeceu num saguão universal
revistas, por favor
e palavras cruzadas
algo mais?
dois twix
algo mais?
dois expressos
é tempo de provisões discretas
é tempo de provisões discretas
não se pode decolar
com dúvida
as turbinas estão paradas
na sua gentileza metálica
e, em terra,
há mãos menos entrelaçadas.
17.4.10
relatório de coisas ridículas demais
perguntei se o conheciam
se você era bom
disseram: não
recomendaram-me inclusive que não fosse sentimental
concordei
rebati você com argumentos
embora o caso pedisse:
1) declarações peremptórias
2) gritos
3) insultos
4) súplicas
5) um tremor
6) e o choro copioso, baixo
embora fosse efetivamente o caso
de recorrer às palavras exatas e às muito lindas
16.2.10
dedicação
e o que não faria essa formiga
para estar entre os dedos dos seus pés?
em fila como todas as outras
na longa frase que são as formigas juntas
escreveria: eu te amo
só ela
as outras,
pedra relva gota chão.
28.1.10
como matar um tigre com convicção
deixa que ele salte
com displicência
apenas olha
deixa
as garras
tentarem outra vez
o que um dia foram
apenas olha
13.1.10
17.12.09
novo tigre
a farpa pode ser madeira pode ser azar
a corda é uma coisa assim
pode ser de seda pode ser de ar
a harpa é uma coisa assim se não for marinha
pode dedilhar
a grade pode ser convento pode ser prisão
pode ser de ferro
pode ser em vão
o mapa pode ser decalque pode ser
um rasgo
o rasgo pode ser heróico pode ser descuido pode ser na pele
pode ser da farpa
a febre pode ser anseio pode ser errada pode ser da gripe
a mão é uma coisa assim
pode conter água pode estar gelada pode ser depois
o asfalto pode ser bem quente pode ter poeira pode cintilar
a boca pode ser aberta pode ser calada
pode ser morango, pode
pode ser morango
o álcool é uma coisa assim pode ser vapor pode arder um pouco
pode ser na pele pode ser na boca pode ser agora
que é uma coisa assim
o fato é uma coisa dúbia
pode ser a boca pode ser a farpa
pode ser a corda pode ser o mapa
pode ser de febre pode ser de sal
o beijo pode ser a falta pode ser a sobra
o quero é uma coisa assim
pode ser o logo pode ser o não
13.12.09
árabe
algazarra de mãos e pés
num mercado cheio
hera de veias saltadas
hera de unhas vermelhas
calma
não é sua vez
eu digitei riacho
você escreveu na margem
na borda há muito saciar
o sol tem sua lua agora
e vem colher o que é tâmara
parece suor:
amor não é
5.12.09
Yeats
ele era bom com as palavras
depois virou destruidor de móveis
recitava Yeats muito bem
por que a televisão está quebrada?
porque a janela também está quebrada
quando ele virava as costas,
sempre havia alguém chorando
ele era um sorriso sem gato
fumando Minister
do outro lado do espelho
sim, ele era bom
em atravessar portas fechadas às pressas
com pés com punhos com gritos e
Yeats.
9.11.09
onde busco
propus um enigma
sob o céu estrelado do deserto
eu te propus e você resolveu
tive que morrer
matando-me
tive que morrer
matando-te
tive
com um punhal uma palavra
coberta e descoberta
pelo deserto ventoso
que seca todos os beijos
tive
no escorpião amarelo
da tua resposta certa
toda estrela se repete
tive
tudo o que é no deserto
insiste mas não vive
13.10.09
9.10.09
hermes ou a probabilidade
Ela está sentada no banco da praça. Ele está sentado no chão do banheiro. Ela está despetalando a margarida. O bebê dorme e a babá aproveita para namorar o vigia. A chuva fina começou. Ele se move nos ladrilhos frios, imerso no vapor do chuveiro ligado, devagar. O bebê dorme. A praça foi surpreendida por um gavião que, fora do céu, ficou imenso. Ele se apóia na pia, mas suas pernas fraquejam. Ela gira a haste da flor entre os dedos. Ele escorrega de novo sobre o piso úmido e bate a cabeça, dessa vez com força. Ela deixa a praça com um sorriso, porque o caule se esvaziou em bem-me-quer. A margarida de qualquer jeito jogada no chão bateu com a cabeça, céu e inferno de todas as pétalas, as indecisas, as bêbadas. E é possível que exista sempre a pétala seguinte que a mão ansiosa não viu e não arrancou. E há ainda outra variante: se o bebê acorda, acaba agora mesmo o amor entre a babá e o vigia. Só que ele não vai mais acordar. Ficou no chão escorregadio, ninguém vai acudi-lo por enquanto e mais tarde será tarde. Gavião nenhum deve descer até a praça. Ela joga o que foi flor no chão e corre da chuva. Volta para casa como quem tem uma urgência, mas confunde isso com alegria. É um daqueles minutos luminosos, uma sensação exultante e rara. Ela não sabe, ele não vai se levantar. Ele não sabe, ela estava triste na praça e tirou a sorte numa flor comum.
3.10.09
30.9.09
fuligem
quem ateia e parte
não vê
o rosto educado pelo incêndio
mapa de estradas brancas
entre olhos e queixo.
25.9.09
essa pesquisa (nota nº 4)*
* observação: Hermes deixou o projeto
se seus pés têm asas
é seu o paraíso
não há dúvida
as estrelas geladas
serão as flores comuns
do caminho
flores da relva úmida
como antigamente
quando a gente admirava o mesmo céu
se seus pés têm asas
é seu o paraíso
não há dúvida
as estrelas geladas
serão as flores comuns
do caminho
flores da relva úmida
como antigamente
quando a gente admirava o mesmo céu
T.S.Eliot (A canção de amor de J. Alfred Prufrock)
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
28.8.09
essa pesquisa (nota nº 3)
Nós, pesquisadores, suportamos lugares inóspitos, comida fria e insetos venenosos com grandes expectativas. Quando vem a lua, e mesmo sem ela, nos arriscamos a pensar sobre matéria negra sem sofrer com a saudade. Apesar de todo o método disponível, hesitamos muito quando um anel dado com amor se perde no fundo do lago.
38 (Emily Dickinson)
The Riddle we can guess
We speedily despise -
Not anything is stale so long
As Yesterday´s surprise
essa pesquisa (nota nº 2)
ela está desfolhando para saber se ele
as pétalas caídas em desordem
têm o mesmo frescor de soldados
que acabam de tombar
antes e depois do combate
tudo é imóvel
extremamente
24.8.09
essa pesquisa (nota nº 1)
nome sem ruído
intacto escuro obediente
assombrado por antigo veio d´água
errando no céu de inestrelas
corpo severo, raramente iluminado
17.8.09
do que você precisa, Wendy?
Apenas uma janela e um céu carbono. É ideal que faça frio e a fumaça saia da boca e que as cintilações do azul gelado garantam que a noite não acabe. Isso é o ideal. Que entre o vidro da janela e tudo, ele continue a flutuar, e eu, eu possa fixar um coração no vapor, cruzá-lo com uma flecha e escrever dois nomes. E é urgente que possa apagá-los com meus dedos pequenos que acabaram de ser inventados.
one art (elizabeth bishop)
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.
20.6.09
julieta ao mar
Não quero mais o amor do peixe gelado: essas, as últimas palavras. E se houvesse trinta segundos? Tanto faz, ela morreria no trigésimo primeiro. Mais doze horas, talvez? Não, não. Seria a metade de um dia, tudo o que ela detestava, metade. Vamos acompanhá-la em silêncio, então (mas vocês não sabem o que ela achava do silêncio?). Ela estava procurando uma pérola, justificaram respeitosamente. Gente idiota, foi só curiosidade, foram as guelras. Eu sei, porque me aproximei e ouvi sua confissão tenra e branca como carne de peixe. Vi seu sorriso flutuante.
12.6.09
rufião
o crime: a demora
mesmo sendo estátuas
o motivo: nada
elas tinham essa ambição
que eram pedra
e seus corações
só isso
pedras pedras pedras
a arma: o limo
essa escultura extraordinária
do tempo de estátua
o lugar: sob o arco de um céu gelado
estava lindo
e até elas imaginaram
um desejo,
foi ali.
28.5.09
não demore, marinheiro
abraça como puder
não importa
o mar de celofane
a chuva de óleo nos fios de nylon
tudo um dia é ridículo
a mulher o porto o homem o navio
28.4.09
o guia de meninos e meninas
Estou caindo nessa conversa, porque sou turista. As meninas são assim, que pena. E a regra é tão clara. É como água, e a água nem é clara, é transparente. Como o lago que vi, numa caverna no então distante Mato Grosso. O guia falou assim: vê, é quase azul, é muito limpa, a água. Mas eu sei que água nenhuma é azul. Só que ele dizia - é a mais limpa, é branca. Ah, branca, que besteira! A areia ao fundo é branca, isso sim, e é fininha, pensei. Eu posso tocar, é só enfiar o braço na água gelada azul sem peixe. Bastando arregaçar um pouco a manga da blusa. Mas o fundo, diz o guia, são pelo menos quinze metros. E sob ele, debaixo dessa areia inocente, há lençóis freáticos, e se alguém mergulhar - ali - a corrente subterrânea é tão forte que leva essa pessoa embora. Leva mesmo. Água água areia areia pedra pedra. Leva para dentro do mundo dos lagartos gigantes e dos meninos que não me amam. No fundo é areia movediça, exclamei, numa iluminação. Não, nada disso. Areia movediça não existe. Mas eu vi. Mas não. Só tem em Terra dos Gigantes: que decepção. Mas é lá que eles somem, os meninos, na areia fina, nos quinze metros, onde a mão não alcança. Como é que eles somem se a água é tão clara? Não, nem é só clara, ela é limpa, é transparente.
20.4.09
caracol
seus olhos antigos
não me interessam
tenho que ver as esperanças
misturadas na folhagem nova
ah, olhos molhados
na grama fresca
foi alguma coisa que eu disse?
foi uma formiga vermelha?
não, não vá chorar agora
você me garantiu que era só uma concha.
26.3.09
sensato
Querido, te amei não como a um primeiro amor, o mais importante, mas como o último: o mais importante. Eu quis mil coisas comuns que, para o querer, não bastaram. Ia pedir para você ficar. Eu mesma ficaria, se o último amor, escrito a lápis, não fosse o mais perfeito. E por isso, exatamente.
calígrafo
o que importa é o primeiro gesto
e todo o destino quem faz
é o deus do primeiro gesto
atrás das cortinas
o indicador pousado nos lábios
maestro enfermeiro casulo
ele unge quem se apaga
e se espalha sobre o que está escrito
caleidoscópio quebrado
ele erra
entre ser rotina e vulcão
sua caligrafia hesita
nas mãos de divindadezinha
e agora há o vento
sobre seu castelo de carta
ele é um deus no espelho
dono do primeiro sopro
o destruidor seu servo.
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preces para um deus atônito
28.1.09
ela (o salto, uma variação)
Daquele dia em diante ela foi um fantasma zangado. Quando ela morreu, nossos velhos nem choraram, eu é que chorei. Um pouco antes de seu corpo ser encontrado, ela ganhara o indulto, mas não adiantou, não havia amigos do outro lado, apenas chaves sem porta. Foi quando (ou foi por isso que) suas pernas contornaram a murada da ponte, como ponteiros de um relógio maluco. Com os braços ainda presos a essa murada, ela parecia um ornamento na proa. Quando as mãos se soltaram, ela foi um passarinho tonto. Não pude evitar. Agora, eu peço que ela me assombre todas as noites de vento forte, quando os velhos sentem um frio esquisito.
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27.1.09
dois parágrafos
1) A temperatura caiu bruscamente, mas era preciso agüentar por mais alguns minutos. Enquanto se vestia, ela esperava por um comentário gentil. Mas não aconteceu. Corrijo-me, vieram comentários, sim, mas ela os achou desagradáveis. Foi preciso ouvir com paciência e surpresa, por que não admitir?, o que saía da boca fria do homem com quem havia passado toda a tarde. O rosto dele se tornara discretamente inexpressivo, cada pausa entre as palavras se alongando demais, sem nenhum conforto. Então ficou bem claro, pois o chão começou a esfriar e alguma fumaça saiu de sua própria boca. Ficou bem claro, ela precisava de um casaco, mas o que tentou foi um abraço – nada. Minto: houve algo, sim, algo que corresponde à mecânica de dois corpos abraçados, mas que é tremendamente estragado pela mão invisível que empurra para longe esses mesmos corpos. Algo como ser colhido por uma rede de pesca e ver-se de repente entre animais molhados e contas de vidro vagabundo: eis o abraço e alguns tapinhas nas costas.
2) Este vento horrível deve estar vindo do sul, lá o chamam minuano – ela pensou. Quando a temperatura começou mesmo a incomodar, foi a sua garganta que reagiu, como uma inflamação, e ela teve que parar de falar. Como é que não tinha percebido que, nesta tarde, ou era já de noite, agora tanto faz, eles escorregariam sobre o gelo fino, tentando correr para longe dali? A natureza dele, que há menos de um minuto parecia tão familiar, tornou-se a superfície lisa de um lago gelado. Sim, há grandes peixes na água de chumbo desse lago. Mas não são peixes desse mundo. Sob o camada vítrea e estéril, a água escura ressaltou o corpo dele, grande e exausto. Por um momento, ela imaginou que ele se sentia muito só e que talvez a estivesse vendo através da janela de água sólida. Foi engano, ele afundava cada vez mais rápido e mantinha o mesmo sorriso vazio. Uma rajada fria fria insuportável passou entre os dois, passou baixa como uma serpente, levando algumas linhas das mãos dela, deixando entre eles isso, que vem do frio repentino, que fere até as superfícies mais resistentes, granizo.
31.12.08
vigília
outra mão escolhe um objeto imprescindível e o atira ao lixo
enquanto a espera arde
outras pernas dão voltas no ninho na madrugada aberta
não sou eu quem erra pelo caminho que a espera guarda
não é minha a mão que colhe uma pedra e acaricía o veludo
não é possível
outro corpo inquieto na órbita de um corpo inquieto espreita
e revolve sem cuidado as minhas coisas
os móveis ao redor ficam azuis
as fotos da família brilham
objetos diabólicos
não sou eu quem está riscando com gelo as paredes
os minutos se provocam com fúria
uma hora completa é a emboscada da hora seguinte
18.9.08
segunda prece, neblina
na espessura dessa névoa
chamo por deus e você também
mas deus atônito
vê nossas mãos se soltarem
e vê que nós rompemos em súplica
sem que uma única palavra
desta prece
estivesse certa finalmente.
ago.08
chamo por deus e você também
mas deus atônito
vê nossas mãos se soltarem
e vê que nós rompemos em súplica
sem que uma única palavra
desta prece
estivesse certa finalmente.
ago.08
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