28.4.09

o guia de meninos e meninas


Estou caindo nessa conversa, porque sou turista. As meninas são assim, que pena. E a regra é tão clara. É como água, e a água nem é clara, é transparente. Como o lago que vi, numa caverna no então distante Mato Grosso. O guia falou assim: vê, é quase azul, é muito limpa, a água. Mas eu sei que água nenhuma é azul. Só que ele dizia - é a mais limpa, é branca. Ah, branca, que besteira! A areia ao fundo é branca, isso sim, e é fininha, pensei. Eu posso tocar, é só enfiar o braço na água gelada azul sem peixe. Bastando arregaçar um pouco a manga da blusa. Mas o fundo, diz o guia, são pelo menos quinze metros. E sob ele, debaixo dessa areia inocente, há lençóis freáticos, e se alguém mergulhar - ali - a corrente subterrânea é tão forte que leva essa pessoa embora. Leva mesmo. Água água areia areia pedra pedra. Leva para dentro do mundo dos lagartos gigantes e dos meninos que não me amam. No fundo é areia movediça, exclamei, numa iluminação. Não, nada disso. Areia movediça não existe. Mas eu vi. Mas não. Só tem em Terra dos Gigantes: que decepção. Mas é lá que eles somem, os meninos, na areia fina, nos quinze metros, onde a mão não alcança. Como é que eles somem se a água é tão clara? Não, nem é só clara, ela é limpa, é transparente.

20.4.09

caracol


seus olhos antigos
não me interessam
tenho que ver as esperanças
misturadas na folhagem nova
ah, olhos molhados
na grama fresca
foi alguma coisa que eu disse?
foi uma formiga vermelha?
não, não vá chorar agora

você me garantiu que era só uma concha.