Daquele dia em diante ela foi um fantasma zangado. Quando ela morreu, nossos velhos nem choraram, eu é que chorei. Um pouco antes de seu corpo ser encontrado, ela ganhara o indulto, mas não adiantou, não havia amigos do outro lado, apenas chaves sem porta. Foi quando (ou foi por isso que) suas pernas contornaram a murada da ponte, como ponteiros de um relógio maluco. Com os braços ainda presos a essa murada, ela parecia um ornamento na proa. Quando as mãos se soltaram, ela foi um passarinho tonto. Não pude evitar. Agora, eu peço que ela me assombre todas as noites de vento forte, quando os velhos sentem um frio esquisito.
28.1.09
ela (o salto, uma variação)
Daquele dia em diante ela foi um fantasma zangado. Quando ela morreu, nossos velhos nem choraram, eu é que chorei. Um pouco antes de seu corpo ser encontrado, ela ganhara o indulto, mas não adiantou, não havia amigos do outro lado, apenas chaves sem porta. Foi quando (ou foi por isso que) suas pernas contornaram a murada da ponte, como ponteiros de um relógio maluco. Com os braços ainda presos a essa murada, ela parecia um ornamento na proa. Quando as mãos se soltaram, ela foi um passarinho tonto. Não pude evitar. Agora, eu peço que ela me assombre todas as noites de vento forte, quando os velhos sentem um frio esquisito.
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27.1.09
dois parágrafos
1) A temperatura caiu bruscamente, mas era preciso agüentar por mais alguns minutos. Enquanto se vestia, ela esperava por um comentário gentil. Mas não aconteceu. Corrijo-me, vieram comentários, sim, mas ela os achou desagradáveis. Foi preciso ouvir com paciência e surpresa, por que não admitir?, o que saía da boca fria do homem com quem havia passado toda a tarde. O rosto dele se tornara discretamente inexpressivo, cada pausa entre as palavras se alongando demais, sem nenhum conforto. Então ficou bem claro, pois o chão começou a esfriar e alguma fumaça saiu de sua própria boca. Ficou bem claro, ela precisava de um casaco, mas o que tentou foi um abraço – nada. Minto: houve algo, sim, algo que corresponde à mecânica de dois corpos abraçados, mas que é tremendamente estragado pela mão invisível que empurra para longe esses mesmos corpos. Algo como ser colhido por uma rede de pesca e ver-se de repente entre animais molhados e contas de vidro vagabundo: eis o abraço e alguns tapinhas nas costas.
2) Este vento horrível deve estar vindo do sul, lá o chamam minuano – ela pensou. Quando a temperatura começou mesmo a incomodar, foi a sua garganta que reagiu, como uma inflamação, e ela teve que parar de falar. Como é que não tinha percebido que, nesta tarde, ou era já de noite, agora tanto faz, eles escorregariam sobre o gelo fino, tentando correr para longe dali? A natureza dele, que há menos de um minuto parecia tão familiar, tornou-se a superfície lisa de um lago gelado. Sim, há grandes peixes na água de chumbo desse lago. Mas não são peixes desse mundo. Sob o camada vítrea e estéril, a água escura ressaltou o corpo dele, grande e exausto. Por um momento, ela imaginou que ele se sentia muito só e que talvez a estivesse vendo através da janela de água sólida. Foi engano, ele afundava cada vez mais rápido e mantinha o mesmo sorriso vazio. Uma rajada fria fria insuportável passou entre os dois, passou baixa como uma serpente, levando algumas linhas das mãos dela, deixando entre eles isso, que vem do frio repentino, que fere até as superfícies mais resistentes, granizo.
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