9.10.09

hermes ou a probabilidade

Ela está sentada no banco da praça. Ele está sentado no chão do banheiro. Ela está despetalando a margarida. O bebê dorme e a babá aproveita para namorar o vigia. A chuva fina começou. Ele se move nos ladrilhos frios, imerso no vapor do chuveiro ligado, devagar. O bebê dorme. A praça foi surpreendida por um gavião que, fora do céu, ficou imenso. Ele se apóia na pia, mas suas pernas fraquejam. Ela gira a haste da flor entre os dedos. Ele escorrega de novo sobre o piso úmido e bate a cabeça, dessa vez com força. Ela deixa a praça com um sorriso, porque o caule se esvaziou em bem-me-quer. A margarida de qualquer jeito jogada no chão bateu com a cabeça, céu e inferno de todas as pétalas, as indecisas, as bêbadas. E é possível que exista sempre a pétala seguinte que a mão ansiosa não viu e não arrancou. E há ainda outra variante: se o bebê acorda, acaba agora mesmo o amor entre a babá e o vigia. Só que ele não vai mais acordar. Ficou no chão escorregadio, ninguém vai acudi-lo por enquanto e mais tarde será tarde. Gavião nenhum deve descer até a praça. Ela joga o que foi flor no chão e corre da chuva. Volta para casa como quem tem uma urgência, mas confunde isso com alegria. É um daqueles minutos luminosos, uma sensação exultante e rara. Ela não sabe, ele não vai se levantar. Ele não sabe, ela estava triste na praça e tirou a sorte numa flor comum.


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