28.8.09

essa pesquisa (nota nº 3)


Nós, pesquisadores, suportamos lugares inóspitos, comida fria e insetos venenosos com grandes expectativas. Quando vem a lua, e mesmo sem ela, nos arriscamos a pensar sobre matéria negra sem sofrer com a saudade. Apesar de todo o método disponível, hesitamos muito quando um anel dado com amor se perde no fundo do lago.





38 (Emily Dickinson)



The Riddle we can guess
We speedily despise -
Not anything is stale so long
As Yesterday´s surprise

essa pesquisa (nota nº 2)

ela está desfolhando para saber se ele

as pétalas caídas em desordem
têm o mesmo frescor de soldados
que acabam de tombar

antes e depois do combate
tudo é imóvel
extremamente





24.8.09

essa pesquisa (nota nº 1)


nome sem ruído
intacto escuro obediente
assombrado por antigo veio d´água
errando no céu de inestrelas
corpo severo, raramente iluminado








17.8.09

do que você precisa, Wendy?

Apenas uma janela e um céu carbono. É ideal que faça frio e a fumaça saia da boca e que as cintilações do azul gelado garantam que a noite não acabe. Isso é o ideal. Que entre o vidro da janela e tudo, ele continue a flutuar, e eu, eu possa fixar um coração no vapor, cruzá-lo com uma flecha e escrever dois nomes. E é urgente que possa apagá-los com meus dedos pequenos que acabaram de ser inventados.



one art (elizabeth bishop)

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

20.6.09

julieta ao mar

Não quero mais o amor do peixe gelado: essas, as últimas palavras. E se houvesse trinta segundos? Tanto faz, ela morreria no trigésimo primeiro. Mais doze horas, talvez? Não, não. Seria a metade de um dia, tudo o que ela detestava, metade. Vamos acompanhá-la em silêncio, então (mas vocês não sabem o que ela achava do silêncio?). Ela estava procurando uma pérola, justificaram respeitosamente. Gente idiota, foi só curiosidade, foram as guelras. Eu sei, porque me aproximei e ouvi sua confissão tenra e branca como carne de peixe. Vi seu sorriso flutuante.

12.6.09

rufião


o crime: a demora
mesmo sendo estátuas

o motivo: nada
elas tinham essa ambição
que eram pedra
e seus corações
só isso
pedras pedras pedras

a arma: o limo
essa escultura extraordinária

do tempo de estátua

o lugar: sob o arco de um céu gelado
estava lindo
e até elas imaginaram
um desejo,
foi ali.

28.5.09

não demore, marinheiro


abraça como puder
não importa

o mar de celofane
a chuva de óleo nos fios de nylon
tudo um dia é ridículo
a mulher o porto o homem o navio

28.4.09

o guia de meninos e meninas


Estou caindo nessa conversa, porque sou turista. As meninas são assim, que pena. E a regra é tão clara. É como água, e a água nem é clara, é transparente. Como o lago que vi, numa caverna no então distante Mato Grosso. O guia falou assim: vê, é quase azul, é muito limpa, a água. Mas eu sei que água nenhuma é azul. Só que ele dizia - é a mais limpa, é branca. Ah, branca, que besteira! A areia ao fundo é branca, isso sim, e é fininha, pensei. Eu posso tocar, é só enfiar o braço na água gelada azul sem peixe. Bastando arregaçar um pouco a manga da blusa. Mas o fundo, diz o guia, são pelo menos quinze metros. E sob ele, debaixo dessa areia inocente, há lençóis freáticos, e se alguém mergulhar - ali - a corrente subterrânea é tão forte que leva essa pessoa embora. Leva mesmo. Água água areia areia pedra pedra. Leva para dentro do mundo dos lagartos gigantes e dos meninos que não me amam. No fundo é areia movediça, exclamei, numa iluminação. Não, nada disso. Areia movediça não existe. Mas eu vi. Mas não. Só tem em Terra dos Gigantes: que decepção. Mas é lá que eles somem, os meninos, na areia fina, nos quinze metros, onde a mão não alcança. Como é que eles somem se a água é tão clara? Não, nem é só clara, ela é limpa, é transparente.

20.4.09

caracol


seus olhos antigos
não me interessam
tenho que ver as esperanças
misturadas na folhagem nova
ah, olhos molhados
na grama fresca
foi alguma coisa que eu disse?
foi uma formiga vermelha?
não, não vá chorar agora

você me garantiu que era só uma concha.

26.3.09

sensato


Querido, te amei não como a um primeiro amor, o mais importante, mas como o último: o mais importante. Eu quis mil coisas comuns que, para o querer, não bastaram. Ia pedir para você ficar. Eu mesma ficaria, se o último amor, escrito a lápis, não fosse o mais perfeito. E por isso, exatamente.

calígrafo


o que importa é o primeiro gesto
e todo o destino quem faz
é o deus do primeiro gesto
atrás das cortinas
o indicador pousado nos lábios
maestro enfermeiro casulo
ele unge quem se apaga
e se espalha sobre o que está escrito
caleidoscópio quebrado
ele erra
entre ser rotina e vulcão
sua caligrafia hesita
nas mãos de divindadezinha
e agora há o vento
sobre seu castelo de carta
ele é um deus no espelho
dono do primeiro sopro
o destruidor seu servo.

28.1.09

ela (o salto, uma variação)


Daquele dia em diante ela foi um fantasma zangado. Quando ela morreu, nossos velhos nem choraram, eu é que chorei. Um pouco antes de seu corpo ser encontrado, ela ganhara o indulto, mas não adiantou, não havia amigos do outro lado, apenas chaves sem porta. Foi quando (ou foi por isso que) suas pernas contornaram a murada da ponte, como ponteiros de um relógio maluco. Com os braços ainda presos a essa murada, ela parecia um ornamento na proa. Quando as mãos se soltaram, ela foi um passarinho tonto. Não pude evitar. Agora, eu peço que ela me assombre todas as noites de vento forte, quando os velhos sentem um frio esquisito.

27.1.09

dois parágrafos


1) A temperatura caiu bruscamente, mas era preciso agüentar por mais alguns minutos. Enquanto se vestia, ela esperava por um comentário gentil. Mas não aconteceu. Corrijo-me, vieram comentários, sim, mas ela os achou desagradáveis. Foi preciso ouvir com paciência e surpresa, por que não admitir?, o que saía da boca fria do homem com quem havia passado toda a tarde. O rosto dele se tornara discretamente inexpressivo, cada pausa entre as palavras se alongando demais, sem nenhum conforto. Então ficou bem claro, pois o chão começou a esfriar e alguma fumaça saiu de sua própria boca. Ficou bem claro, ela precisava de um casaco, mas o que tentou foi um abraço – nada. Minto: houve algo, sim, algo que corresponde à mecânica de dois corpos abraçados, mas que é tremendamente estragado pela mão invisível que empurra para longe esses mesmos corpos. Algo como ser colhido por uma rede de pesca e ver-se de repente entre animais molhados e contas de vidro vagabundo: eis o abraço e alguns tapinhas nas costas.
2) Este vento horrível deve estar vindo do sul, lá o chamam minuano – ela pensou. Quando a temperatura começou mesmo a incomodar, foi a sua garganta que reagiu, como uma inflamação, e ela teve que parar de falar. Como é que não tinha percebido que, nesta tarde, ou era já de noite, agora tanto faz, eles escorregariam sobre o gelo fino, tentando correr para longe dali? A natureza dele, que há menos de um minuto parecia tão familiar, tornou-se a superfície lisa de um lago gelado. Sim, há grandes peixes na água de chumbo desse lago. Mas não são peixes desse mundo. Sob o camada vítrea e estéril, a água escura ressaltou o corpo dele, grande e exausto. Por um momento, ela imaginou que ele se sentia muito só e que talvez a estivesse vendo através da janela de água sólida. Foi engano, ele afundava cada vez mais rápido e mantinha o mesmo sorriso vazio. Uma rajada fria fria insuportável passou entre os dois, passou baixa como uma serpente, levando algumas linhas das mãos dela, deixando entre eles isso, que vem do frio repentino, que fere até as superfícies mais resistentes, granizo.

31.12.08

vigília



outra mão escolhe um objeto imprescindível e o atira ao lixo

enquanto a espera arde
outras pernas dão voltas no ninho na madrugada aberta
não sou eu quem erra pelo caminho que a espera guarda
não é minha a mão que colhe uma pedra e acaricía o veludo
não é possível
outro corpo inquieto na órbita de um corpo inquieto espreita
e revolve sem cuidado as minhas coisas
os móveis ao redor ficam azuis
as fotos da família brilham
objetos diabólicos
não sou eu quem está riscando com gelo as paredes
os minutos se provocam com fúria
uma hora completa é a emboscada da hora seguinte

18.9.08

segunda prece, neblina

na espessura dessa névoa
chamo por deus e você também
mas deus atônito
vê nossas mãos se soltarem
e vê que nós rompemos em súplica
sem que uma única palavra
desta prece
estivesse certa finalmente.

ago.08